O cenário da indústria do entretenimento global sofreu um abalo sísmico nesta semana, desenhando o que pode ser a maior batalha corporativa da década entre gigantes da mídia. A possível venda da Warner Bros. Discovery parecia caminhar para as mãos da Netflix, mas uma reviravolta dramática — impulsionada por cifras astronômicas e estratégias agressivas de mercado — colocou a Paramount Global de volta no jogo. A disputa não é apenas por estúdios ou franquias famosas, mas pelo domínio total da atenção do consumidor nos próximos anos.
Nesse contexto de alta tensão, a oferta inesperada da Paramount pela Warner surge como um movimento calculado para desestabilizar o acordo prévio com a gigante do streaming. Ao colocar na mesa impressionantes US$ 108,4 bilhões (aproximadamente R$ 589 bilhões), a Paramount não apenas supera financeiramente a proposta da rival, mas também envia uma mensagem clara aos acionistas: o futuro do cinema e da televisão tradicional ainda tem força para desafiar o modelo puramente digital do Vale do Silício.
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A batalha dos bilhões: Paramount supera a Netflix
A narrativa que se desenha nos bastidores de Hollywood é digna de um roteiro premiado. De um lado, temos a Netflix, pioneira do streaming, que havia proposto US$ 82,7 bilhões (cerca de R$ 449 bilhões) para adquirir a Warner Bros. Discovery. Parecia um negócio fechado, uma consolidação natural que daria à Netflix o controle sobre marcas lendárias como HBO, DC Comics e CNN.
No entanto, a Paramount, sob a bandeira da Skydance Media, decidiu que não aceitaria a derrota passivamente. A nova proposta supera a da Netflix em quase US$ 26 bilhões. Mas a diferença não está apenas no valor final. A estrutura do acordo proposta pela Paramount é abrangente, visando adquirir não apenas os estúdios de cinema e a plataforma de streaming Max, mas também todas as redes de televisão lineares (canais a cabo e TV aberta) que pertencem ao conglomerado Warner.
Para o investidor, a matemática apresentada é sedutora:
- Netflix: Ofereceu cerca de US$ 28 por ação.
- Paramount: Subiu a aposta para US$ 30 por ação.
Essa diferença de dois dólares por papel pode parecer pequena para um observador casual, mas no volume total de ações da Warner, isso se traduz em um ganho imediato de liquidez para os acionistas.
O que caracteriza essa oferta inesperada?
Para quem não acompanha o mercado financeiro diariamente, a manobra pode parecer surpreendente, mas é uma estratégia legítima e fascinante do mundo corporativo. Essa oferta inesperada acontece porque a empresa interessada em comprar (a Paramount/Skydance) decidiu ignorar a diretoria e os executivos da empresa alvo (neste caso, o CEO e o conselho da Warner) e foi bater diretamente na porta dos “verdadeiros donos”: os acionistas.
Imagine que você quer comprar uma casa, mas o corretor ou o administrador do imóvel se recusa a vender. Nessa estratégia, você descobre quem é o proprietário da escritura e faz uma proposta irrecusável diretamente a ele, pegando a administração de surpresa.
A tática da Paramount baseia-se na premissa de que a diretoria da Warner poderia estar inclinada a fechar com a Netflix por motivos estratégicos ou pessoais, ignorando uma proposta financeira melhor. Ao apelar diretamente aos detentores das ações, a Paramount força a mão do conselho administrativo, criando uma pressão interna para que a proposta mais lucrativa seja aceita.
O fator Ellison: Dinheiro infinito e poder tecnológico
Um detalhe crucial que dá credibilidade e peso a essa movimentação titânica é quem está assinando o cheque. A oferta não vem apenas do caixa da Paramount, mas possui o respaldo financeiro de Larry Ellison. Fundador da Oracle e consistentemente listado entre as dez pessoas mais ricas do mundo, Ellison traz para a mesa uma segurança financeira que poucos players no mercado possuem.
Seu filho, David Ellison, CEO da Skydance (parceira de longa data da Paramount), é a face pública do negócio. A presença da família Ellison, apoiada por instituições financeiras de peso como Bank of America, Citi e Apollo Global Management, sinaliza que o pagamento será feito à vista.
Em um comunicado incisivo, a Paramount destacou que tentou negociar de forma amigável:
“A Paramount agora levou sua oferta diretamente aos acionistas da WBD e ao seu Conselho de Administração para garantir que eles tenham a oportunidade de buscar essa alternativa claramente superior.”
Segundo a empresa, foram feitas pelo menos seis tentativas de contato e propostas nas últimas 12 semanas, todas ignoradas ou rejeitadas pela cúpula da Warner, o que justificou a mudança para essa abordagem direta e surpreendente.
O impacto no consumidor e no mercado
A grande questão que fica para nós, consumidores, é: como isso afeta a nossa assinatura no final do mês? A Paramount utilizou argumentos “pró-consumidor” para atacar a proposta da Netflix. Segundo a defesa da Paramount, uma fusão entre Warner e Netflix criaria um monopólio perigoso no streaming.
Os riscos apontados pela Paramount:
- Aumento de preços: Com menos concorrência, a “Netflix-Warner” teria poder total para ditar os preços das mensalidades sem medo de perder assinantes.
- Desvalorização profissional: Uma fusão desse porte poderia achatar os salários de roteiristas, atores e técnicos, já que haveria um empregador a menos no mercado para disputar talentos.
- Monocultura: A indústria do cinema poderia sofrer com uma homogeneização do conteúdo, focado apenas em algoritmos de streaming, em detrimento da experiência cinematográfica tradicional.
Por outro lado, a união entre Paramount e Warner também criaria um gigante colossal. Imagine o catálogo do Paramount+ (Top Gun, Star Trek, Yellowstone) fundido com o da Max (Game of Thrones, Harry Potter, Batman). Seria, sem dúvida, o acervo mais robusto da história do entretenimento, capaz de rivalizar ou até superar a Disney.
O Governo vai permitir?
Não basta ter dinheiro; é preciso ter permissão. Especialistas de mercado e analistas da Reuters apontam que, embora a Paramount seja a candidata financeira mais forte (graças à fortuna dos Ellison), o caminho até a assinatura do contrato é minado por obstáculos legais.
Nos Estados Unidos, a FTC (Federal Trade Commission) tem adotado uma postura muito rígida contra fusões que diminuam a competição.
- Se a Paramount comprar: Haverá preocupação sobre a concentração de estúdios de cinema clássicos e redes de TV a cabo.
- Se a Netflix comprar: O foco será o monopólio do streaming e o poder de barganha excessivo sobre produtores de conteúdo.
Além disso, os sindicatos de Hollywood, que recentemente paralisaram a indústria com greves históricas, estão em alerta máximo. Qualquer fusão dessa magnitude traz consigo a palavra que todo trabalhador teme: “sinergia”. No “corporativês”, sinergia quase sempre significa demissões em massa para cortar cargos duplicados (por exemplo, por que ter dois departamentos de RH ou duas equipes de marketing se as empresas agora são uma só?).
Até mesmo figuras políticas, como o ex-presidente Donald Trump, já levantaram dúvidas sobre a viabilidade e a “saúde” dessas megafusões para o mercado americano, mostrando que o tema transcende o entretenimento e entra na esfera do debate público e econômico.
O veredito sobre a proposta
Vale a pena torcer por algum lado nessa guerra de titãs? A realidade é que a oferta inesperada da Paramount pela Warner expõe a fragilidade do modelo atual de mídia: para sobreviver, é preciso ser gigante.
Para o acionista, a oferta da Paramount é inegavelmente superior no curto prazo. Dinheiro na mão e valorização das ações. Para o consumidor, a situação é mais turva. Enquanto a fusão com a Netflix poderia centralizar muito poder em um único aplicativo, a fusão com a Paramount poderia salvar o legado dos estúdios tradicionais, mas ainda assim resultaria em menos opções no mercado.
Resta agora saber se os acionistas da Warner terão a ousadia de desafiar seus próprios executivos e aceitar os bilhões dos Ellison, ou se preferirão a segurança moderna da Netflix. E você, leitor: prefere ver o catálogo da HBO dentro da Netflix ou unido ao universo da Paramount? A sua próxima maratona de séries depende dessa resposta.